No âmbito da psicanálise, a bipolaridade não é lida apenas como uma oscilação bioquímica, mas como uma flutuação extrema na economia da libido e na relação do sujeito com o seu ideal. Embora a psiquiatria contemporânea utilize o termo Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), a psicanálise tradicionalmente investiga esses estados sob a égide da Psicose Maníaco-Depressiva (PMD), termo cunhado originalmente por Emil Kraepelin e explorado por Freud e Abraham.
Para a psicanálise, o estado depressivo profundo (melancolia) diferencia-se do luto comum. No luto, o mundo tornou-se pobre e vazio; na melancolia, é o próprio Eu que se torna pobre e vazio.
A Perda do Objeto: O sujeito sofre uma perda, mas não consegue identificar conscientemente o que perdeu no objeto.
Identificação Narcísica: O Eu identifica-se com o objeto perdido ("a sombra do objeto cai sobre o ego"). Assim, o ódio que era direcionado ao objeto que "abandonou" o sujeito é voltado para o próprio Eu.
Crueldade do Superego: O Superego torna-se implacável, agredindo o Eu com críticas e sentimentos de culpa devastadores.
A fase maníaca é interpretada como um mecanismo de defesa contra o sofrimento insuportável da melancolia. É o momento em que o Eu "devora" o objeto e se funde temporariamente com o Ideal do Eu.
O Triunfo sobre o Objeto: Na mania, o sujeito celebra a libertação da pressão do objeto perdido. Há uma descarga maciça de libido que antes estava aprisionada na autocrítica.
Onipotência Narcísica: O sujeito sente que nada lhe é impossível. As barreiras da realidade e as interdições do Superego são suspensas, gerando a aceleração do pensamento (fuga de ideias) e a hiperatividade.
Negação da Falta: A mania nega qualquer rastro de perda ou castração. É uma tentativa desesperada de preencher o vazio existencial com excesso de estímulos, compras, fala ou sexualidade.
A psicanálise questiona se a bipolaridade se manifesta em uma estrutura psicótica ou neurótica:
Na Estrutura Psicótica: A oscilação ocorre por uma falha na Foraclusão do Nome-do-Pai (conceito lacaniano). O sujeito não consegue estabilizar seu lugar no mundo simbólico, ficando à mercê de flutuações energéticas brutais.
Na Neurose (Ciclotimia): Pode ser vista como uma oscilação narcísica grave, onde o sujeito alterna entre a inflação do Ego (sentir-se maravilhoso) e a deflação (sentir-se um lixo), geralmente ligada à busca de aprovação do Ideal do Eu.
Diferente da abordagem medicamentosa (que foca na estabilização do humor via lítio ou antipsicóticos), o tratamento psicanalítico busca:
Dar Palavra ao Sofrimento: Permitir que o sujeito localize o "objeto" que está causando a devastação interna.
Manejar a Transferência: O analista deve ter cautela, pois na fase maníaca o paciente pode abandonar o tratamento por se sentir "curado", e na fase melancólica o risco de passagem ao ato (suicídio) é elevado.
Construção de Contornos: Ajudar o paciente a criar anteparos simbólicos para que as quedas não sejam tão profundas e as subidas não sejam tão desestruturantes.
Perspectiva Técnica: Enquanto a medicina foca no quantum (quantidade de neurotransmissores), a psicanálise foca no quale (a qualidade do desejo e o sentido subjetivo da oscilação).