O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento de etiologia multifatorial, caracterizado por níveis de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade que são inconsistentes com o nível de desenvolvimento do indivíduo. Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o TDAH não é apenas uma questão de comportamento, mas uma condição que afeta o funcionamento executivo e o sistema de recompensa do cérebro.
A fisiopatologia do TDAH envolve desequilíbrios na neurotransmissão e diferenças estruturais no sistema nervoso central:
Neurotransmissores: Observa-se uma desregulação nos sistemas de dopamina e noradrenalina, particularmente nas vias que conectam o córtex pré-frontal aos gânglios da base. Isso afeta a motivação, o foco e o controle de impulsos.
Circuitos Cerebrais: Estudos de neuroimagem indicam um atraso na maturação cortical, especialmente no córtex pré-frontal, área responsável pelas funções executivas (planejamento, memória de trabalho e inibição de respostas).
Genética: Possui herdabilidade elevada, estimada em cerca de 70% a 80%, envolvendo múltiplos genes que modulam a função dopaminérgica.
O TDAH é classificado em três apresentações principais, dependendo dos sintomas predominantes nos últimos seis meses:
Apresentação
Características Principais
Predominantemente Desatento
Dificuldade em manter o foco, erros por descuido, problemas de organização, distração por estímulos externos e esquecimentos constantes.
Predominantemente Hiperativo-Impulsivo
Inquietude motora (fidgeting), dificuldade em permanecer sentado, fala excessiva, interrupção de conversas e dificuldade em esperar a vez.
Combinada
Presença significativa de critérios tanto de desatenção quanto de hiperatividade/impulsividade.
O diagnóstico é estritamente clínico, baseado na anamnese detalhada e observação comportamental. Os critérios fundamentais incluem:
Início precoce: Vários sintomas devem estar presentes antes dos 12 anos de idade.
Pervasividade: Os sintomas devem manifestar-se em dois ou mais ambientes (ex: casa, escola/trabalho, social).
Prejuízo funcional: Deve haver evidência clara de que os sintomas interferem no funcionamento social, acadêmico ou profissional.
Exclusão: Os sintomas não devem ser melhor explicados por outro transtorno mental (como transtornos de ansiedade ou de humor).
O tratamento padrão-ouro é multimodal, combinando diferentes frentes:
Intervenções Farmacológicas:
Estimulantes (ex: Metilfenidato, Lisdexanfetamina): Aumentam a disponibilidade de dopamina e noradrenalina nas fendas sinápticas.
Não Estimulantes (ex: Atomoxetina): Opções para pacientes que não toleram estimulantes ou possuem comorbidades específicas.
Psicoterapia:
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a mais indicada para adultos, focando em estratégias de organização, manejo de tempo e regulação emocional.
Intervenções Psicopedagógicas:
Adaptações no ambiente escolar ou de trabalho para minimizar distrações e fracionar tarefas complexas.
Embora os sintomas de hiperatividade motora tendam a diminuir na idade adulta, a desatenção e a impulsividade cognitiva frequentemente persistem. É comum a presença de comorbidades como Transtorno Opositor Desafiador (TOD), transtornos de aprendizagem, ansiedade e depressão secundária aos prejuízos acumulados ao longo da vida.