TRABALHO APRESENTADO DE CONCLUSÃO DO CURSO DE PSICANALISE CLINICA
MECANISMOS DE DEFESA NA PERSPECTIVA DO NARCISISMO
1. Introdução
O presente trabalho visa apresentar, sob a perspectiva psicanalítica, os mecanismos de defesa adotados por indivíduos com Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN), abordando suas formas de manifestação, especialmente em situações de conflito e oposição. Os mecanismos estudados são: projeção, negação e isolamento.
2. Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN)
A pessoa que possui transtorno de personalidade narcisista, meramente denominada de narcisista é uma pessoa que possui o “self” extremado, necessita de ser validado e bajulado, quando seu ID e “self” aflorado a ponto de se colocar num alto nível de superioridade diante das pessoas e circunstância.
Nesta ato de validação constante, o narcisista precisa ter em seu torno pessoas que promovam a validação, que o colocam numa posição de superioridade e empoderamento, bem como adota condutas e comportamentos ávidos à levar a efeito tal validação.
Destacamos como exemplo uma pessoa que ao produzir algo precisa da bajulação de todos para que seu trabalhado seja reconhecido e validado, ou seja, necessita de ter ao seu lado pessoas que independente de qualquer situação jamais critique sua produção, sua arte, sua manifestação, mas concorde integralmente e ainda o coloque numa situação de superioridade.
Normalmente a pessoa com TPN para ter sempre validação, acaba, muitas vezes se apropriando de produções de terceiros para colocar como seu a fim de que as pessoas passos ovacioná-lo(a), mesmo este sabendo que tal produção não decorreu de sua execução, mas execução de terceiro.
A pessoa com transtorno de personalidade narcisista, sempre procura construir seu entorno social com pessoa que possam validá-la, bajulá-la, colocá-la num pedestal, direcionar todos os holofortes para si, ser aplaudido(a) constantemente. Podemos destacar como exemplo de expressões que acalantam e engrandecem o narcista: “você é magnífico(a)”, “você é o(a) melhor de todos(as)”, “minha rainha”, “mi amo mi bem”, “só não tenho tamanho, mas tenho coragem”, etc.
Outro ponto a ser destacado no comportamento narcísico é a critica constante e não construtiva de qualquer coisa ou produto feito por terceiros, ou seja, quando a pessoa portadora do TPN produz algo, tende a criticar severamente outro produto semelhante produzido por terceiros, a fim de que seu produto sobressaia e assim possa ser validado, colocando-o na posição de superioridade.
O narcisista não ostenta autocritica e tampouco consegue realizar uma autoanalise, pois conflita diretamente com a sua visão de ser, de vida e de mundo. Contudo, consegue com maestria criticar àqueles que não condizem com seu aspecto de superioridade.
O narcisismo sendo um traço de personalidade inflamada, necessita seu portador de alta admiração e validação, além de possuir falta de empatia pelos outros, são extremamente controladores, sendo que tal transtorno possui diversos graus, desde o mais leve até os mais graves.
Tal transtorno na visão de Freud atua como defesa contra sentimentos de vergonha, humilhação e pode se desenvolver em decorrências de experiências precoces de rejeição e negligência.
Podemos destacar três níveis de transtorno de personalidade narcisista. Primário, secundário e patológico.
O Primeiro grau denominado primário é o que ocorre na infância quando o bebe se vê como o centro do universo.
O segundo grau denominado narcisismo secundário ou leve (Narcisismo adaptativo), presente em cada um de nós, que permite ajudar a elevar e manter a autoestima, a confiança e a motivação, como, por exemplo, uma pessoa que se produz e embeleza para sair a um passeio, uma balada noturna.
O terceiro grau que o narcisismo grave patológico (narcisismo excessivo), onde o ego tão inflamado, acentuado e controlador(a) extremado, prejudica as relações sociais, conjugais, profissionais e a tomada de decisões.
Destacamos no narcisismo patológico os seguintes aspectos inerentes e presentes e que são evidenciados com facilidade, como características preponderantes:
A) Se acham superiores ou especiais;
B) Exigem admiração constante;
C) Sentem inveja dos outros (ou acham que são invejados constantemente);
D) Tem pouca ou nenhuma empatia;
E) Usam os outros para atingir seus próprios objetivos;
F) Podem reagir com raiva ou desprezo quando criticados;
G) Controladores e manipuladores;
H) Nunca aceitam que estão errados;
I) Mentem para serem elogiados ou bajulados ou para estarem em nível de superioridade frente aos outros;
J) Nunca aceitam críticas e quando criticados se enraivam ou se magoam;
K) São pessoais que possuem enorme dificuldade de se desculpar ou pedir perdão por algum erro praticado.
Neste grau patológico, que guarda relação com o presente trabalho, o narcisista além de extremamente vaidoso, pouca empático, atua com raiva e desprezo quando criticados, são controladores extremados e não aceitam que estão errados, mesmo que evidencias mostrem o erro cometido.
Tais sintomas têm sua origem na infância, com, por exemplo:
A) excesso de elogios e bajulações extremadas,
B) Ausência de negativa pelos pais por qualquer ato realizado,
C) Traumas psicológicos, e;
D) Fatores genéticos e ambientais combinados.
E) Os pais escondem os erros cometidos pelo filho(a);
F) Superproteção;
Diante disso, o narcisista quando confrontado exterioriza mecanismos de defesa para fins de retomar o controle da situação, buscando subjugar seu confrontante, utilizando mecanismos como projeção, negação, isolamento, nas quais abordaremos a seguir.
3. Mecanismos de Defesas.
Os mecanismos de defesas é utilizado pelo Ego com o objetivo de proteger a pessoa contra situações que possam levar a sofrimento de sentimento e angustia, sendo utilizadas quando tais situações são colocadas a prova.
No campo do transtorno de personalidade narcisista, não é diferente, mecanismos de defesas são utilizadas usualmente a projeção, negação e isolamento, como forma de restabelecer o controle psíquico, emocional, sentimental e de tudo em sua volta.
Como o narcisista detesta ser contrariado, ser questionado, ser confrontado, a mera contrariedade faz emergir automaticamente a projeção como mecanismo de defesa e quando este não atinge o objetivo desejado para a negação e ao isolamento, sendo este o último estágio de defesa do narcisista e somente após a depuração do isolamento é que sua psique retorna a normalidade.
O uso constante de mecanismos de defesa pode gerar padrões de comportamentos desadaptativos.
Desta forma, passamos a abordar os três mecanismos mais comuns no transtorno de personalidade narcisista.
4. O mecanismo de defesa (projeção) no transtorno de personalidade narcisista.
O primeiro mecanismo de defesa abarcado pelo narcisista é a projeção, onde o mesmo projeta em seu confrontante os aspectos inerentes ao confronto, a indagação, a crítica recebida, buscando reverter a situação a seu favor e colocando o confrontante numa posição de inferioridade e erro.
Em outras palavras, o narcisista, quando confrontado, projeta ao confrontante a crítica recebida, procurando de alguma forma projetar ao confrontante a situação levando a crer que o confrontante é o causador daquela situação ou o praticante daquele ato.
Podemos destacar neste contexto, por exemplo, um cônjuge que trai(numa noite de balada, numa noite nada mais), seu cônjuge e quando é descoberto(a) de alguma forma, por algum meio e ao ser confrontado(a) pelo outro cônjuge, promove ataques, alegando que este é que trai, que mente, buscando reverter a situação a seu favor.
Tal ato realizado pelo narcisista não guarda relação somente com infidelidade, mas com qualquer outro ato negativo, imoral ou antissocial praticado, contudo, jamais aceita que a prática de tais atos sejam errados ou que sejam criticados ou confrontados, bem como demonstram uma falsa percepção da realidade.
Quando o narcisista percebe que seu método de defesa (projeção) surtir efeito sobre o confrontante, passa para o estágio seguinte que é o exercício de controle e poder, impondo dai por diante a sua vontade fazendo com que o confrontante pratique incondicionalmente a vontade do narcisista.
Entretanto, quando o narcisista percebe que a projeção não surtiu o efeito desejado, adentra no mecanismo de defesa denominado (negação) e sequencialmente (isolamento), nas quais abordaremos cada uma delas a seguir:
5. O mecanismo de defesa (negação) no transtorno de personalidade narcisista.
O mecanismo de defesa denominado negação é o segundo estágio no transtorno de personalidade narcisista, onde o indivíduo ao perceber que a projeção não surtiu o efeito desejado, começa a negar o ato ou atos praticados, colocando-se numa situação de vítima da circunstância e da situação, com o intuito de passar a ideia de que nada praticou mesmo que as evidências demonstrem o contrário.
Tal mecanismo de defesa visa a recusa de uma realidade dolorosa, ameaçadora ou difícil de lidar e atua inconscientemente para proteger o ego de algo difícil de encarar, porque as vezes a verdade emocional é dura demais e tem como função um escudo emocional para evitar sofrimento imediato, adormecendo a dor por um certo período de tempo, evitando um colapso emocional.
Mesmo que tenhamos em mente a negação como um ato de dizer que não realizou tal situação com vista a proteger a psique, pode atuar ainda no campo do esquecimento, ou seja, a pessoa, a ser compelida sobre tal fato, tal circunstância, diz que não se lembra do que realizou, que não esteve e não se lembra de estar em determinado local e hora.
Superado o estágio da negação, adentra-se o isolamento, onde a pessoa portadora do TPN fechasse num momento isolado de tudo e de todos, sendo este último mecanismo de defesa a ser abordado neste trabalho.
6. O mecanismo de defesa (isolamento) no transtorno de personalidade narcisista.
O isolamento é o último mecanismo de defesa utilizado pelo narcisista a fim de atingir seu objetivo controlador e ao mesmo tempo depurador psíquico com o intuito de equilibrar o ID, Ego e SuperEgo.
Quando o narcisista percebe que suas primeiras tentativas foram em vão adentra na esfera do isolamento, fechando-se provisoriamente para o mundo e para todos, resta incomunicável.
Tal mecanismo visa buscar o equilíbrio, a normalidade psíquica e a racionalização, permitindo posteriormente uma melhor tomada de decisão sobre sua vida e suas emoções.
7. Conclusão.
Conclui-se, que o transtorno de personalidade narcisista em níveis acentuados pode gerar enormes conflitos internos e externos, pois permite que a pessoa, ao tornar-se extremamente vaidosa, individualista, soberba, controlador(a), manipulador(a) e somente enxerga o mundo em sua volta, dentro da validação constante, sem empatia, com ar de superioridade.
Restou claro que o narcisista não suporta ser contrariado, contraditado, confrontado e quando tais questões são levadas a efeito, permite que o narcisista adote os mecanismos de defesa destacados, como a projeção, negação e isolamento.
No contexto do Transtorno de Personalidade Narcisista, os mecanismos de defesa do ego — como projeção, negação e isolamento do afeto — desempenham um papel central na manutenção da autoimagem grandiosa e na evitação de conteúdos psíquicos dolorosos. A projeção permite ao indivíduo atribuir a terceiros características inaceitáveis de si próprio, reduzindo o desconforto interno. A negação opera como recusa inconsciente de realidades ameaçadoras à autoestima, enquanto o isolamento dissocia o afeto do conteúdo cognitivo, possibilitando o relato de experiências sem envolvimento emocional. Tais mecanismos dificultam o desenvolvimento da empatia, comprometem as relações interpessoais e representam importantes desafios clínicos, tanto para o diagnóstico quanto para a adesão ao tratamento psicoterapêutico. A compreensão profunda desses processos defensivos é fundamental para intervenções terapêuticas eficazes e éticas, que respeitem a complexidade da estrutura narcísica e favoreçam um gradual processo de insight e elaboração emocional.
Sob a ótica freudiana, os mecanismos de defesa como projeção, negação e isolamento do afeto representam formas inconscientes de proteção do ego frente a conteúdos psíquicos incompatíveis com o ideal do Eu. No Transtorno de Personalidade Narcisista, tais defesas operam de maneira rígida e recorrente, como tentativa de evitar o contato com afetos dolorosos oriundos do conflito entre o ego e as exigências do superego ou da realidade externa. A projeção, ao deslocar impulsos ou sentimentos inaceitáveis para o outro, preserva uma autoimagem idealizada. A negação atua na recusa inconsciente da realidade, permitindo ao sujeito manter sua onipotência narcísica frente a frustrações. Já o isolamento dissocia o conteúdo ideativo do afeto correspondente, favorecendo um relato racionalizado e desprovido de emoção, especialmente em experiências traumáticas. Para Freud, tais mecanismos são formas de defesa do ego que, quando cristalizadas, como no narcisismo patológico, dificultam a simbolização, o acesso ao inconsciente e o processo de elaboração psíquica, comprometendo a constituição saudável da subjetividade e o progresso terapêutico.
Necessário a pessoa que ostenta tal transtorno ser submetida a tratamento terapêutico especializado. A atuação do analista, nesse contexto, deve acolher a fragilidade subjacente à grandiosidade egóica, favorecendo a emergência gradual de afetos recalcados e a elaboração simbólica das feridas narcísicas. O objetivo terapêutico não é a eliminação imediata dos mecanismos de defesa, mas sua flexibilização, de modo a permitir maior integração psíquica, desenvolvimento da empatia e fortalecimento do ego. Assim, o tratamento do narcisismo, a partir do reconhecimento e manejo clínico das defesas psíquicas, constitui um caminho longo, porém possível, em direção a uma subjetividade mais autêntica e relacional.